a chegada de exploradores em busca de pedras preciosas contribuiu para o início do povoamento do Sertão das Jacobinas, realizado por vaqueiros ligados aos grandes latifúndios da Casa da Torre e Casa da Ponte, e para o começo do apagamento da memória dos povos indígenas que ocupavam o território antes.[9][10]
Uma das primeiras entradas no Sertão das Jacobinas em busca de minérios preciosos e do aprisionamento de indígenas para a sua escravização foi a realizada pelo neto de Caramuru Belchior Dias Moreia, conhecido como Muribeca, cuja expedição percorreu o interior da Bahia e de Sergipe entre 1595 (ou 1596) e 1604. Esse explorador alegou ter encontrado minas de prata, informação que não se comprovou na prática. Em 1630, o sobrinho de Muribeca, Francisco Dias d'Ávila, que era ligado também por parentesco aos latifundiários da Casa da Torre, apareceu na região com o mesmo propósito do tio e encontrou minas de salitre no norte da Chapada Diamantina, as quais só começaram a ser efetivamente exploradas na década de 1670. A mão-de-obra utilizada nas salitreiras era a dos indígenas, muitos deles vindos dos aldeamentos.[10][11][12]
A partir de meados do século XVII, a região do Sertão das Jacobinas foi desbravada também por bandeirantes paulistas, inicialmente focados na “guerra justa” contra indígenas que não aceitavam o Cristianismo, mas que depois passaram também a procurar pedras preciosas.[9]
Na segunda metade do século XVII, jesuítas criaram, no norte da Chapada Diamantina, aldeamentos missionários, para a catequese e proteção dos indígenas locais. No entanto, devido aos constantes ataques da Casa da Torre e da Ponte às missões, os padres da Companhia de Jesus abandonaram-nas, sendo substituídos pelos franciscanos.[10][13]
Em 1682, foi criada a Freguesia de Santo Antônio da Jacobina Velha, sediada no aldeamento missionário de São Francisco Xavier, localizado nos arredores do que é hoje a cidade de Campo Formoso, fundado em 1666 pelos jesuítas Jacob Roland e João de Barros.[9][10][12]
No final do século XVII e inicio do século XVIII, bandeirantes paulistas que estavam em Cachoeira seguiram pelo curso do Rio Paraguaçu, chegando à região do atual município de Jacobina para realizar “guerra justa” contra os indígenas, mas acabaram descobrindo ouro nessa área. A descoberta de ouro em Jacobina e arredores trouxe para essa área um grande número de desbravadores portugueses e paulistas, além de muitos escravos africanos para trabalhar nas jazidas Em 1706, sob o incentivo do latifundiário Antônio da Silva Pimentel[16], possuidor de terras na região, que havia peticionado no ano anterior para a rainha infante de Portugal, foi estabelecida, no local em que hoje é a cidade de Jacobina, o aldeamento missionário denominado Missão do Bom Jesus da Glória de Jacobina, fundado por missionários franciscanos, que contava com uma capela construída no mesmo ano da fundação. A capela do Bom Jesus da Glória e viria a ser tornar conhecida no futuro como "Igreja da Missão".[13][17][18]
Com o aldeamento missionário de Bom Jesus da Glória de Jacobina, os franciscanos reuniram os indígenas remanescentes, com destaque para os paiaiás, com o propósito de catequizá-los.[13][17] Esta foi a missão religiosa que existiu por mais tempo na região, tendo existido até 1847.[16][18]
Escravidão
Apesar de ter sido invisibilizada durante muito tempo pelas narrativas historiográficas centradas nas regiões litorâneas da Bahia, a freguesia de Santo Antônio de Jacobina esteve significativamente inserida no sistema escravista entre os séculos XVII e XIX. No século XVIII, esse território foi palco de muitas descobertas de jazidas de metais preciosos. As descobertas auríferas tiveram um grande impacto na demanda do transporte de escravizados da costa ocidental africana para os sertões da América Portuguesa, em vistas do aumento da necessidade de mão de obra. À época, o trabalho escravo era essencial para a constituição da economia de uma sociedade mineradora, sendo um serviço extremamente árduo, considerando que a vida útil de um escravizado na mineração, geralmente, não ultrapassava os 10 anos.[19]
No século XVII, a média de posse de escravizados na mesma região era de 2 cativos por senhor,[20] e apesar de custar caro manter um cativo, sua presença estava na grande maioria entre os pequenos proprietários.[21] Nesse período, ter cativos não significava apenas possuir mão de obra, mas principalmente, configurava poder e status àqueles que os possuíam. Entre 1816-1820, os senhores da freguesia já possuíam, em sua maioria, de 3 a 4 cativos. Sendo importante destacar que provavelmente a posse de alguns deles não tenha sido registrada nos documentos. Os números podiam ser consideravelmente maior, de forma que a posse de escravizados na região, apesar de composta em sua maioria por pequenos proprietários, variava também para grandes proprietários, como é o caso do Capitão-mor Antônio Lopes Cesar e João Sahagem de Miranda, o primeiro com aproximadamente 12 e o segundo com 20 escravos. Havia ainda nesse meio, a presença de uma mulher, Maria Vicência do Espírito Santo, que se destaca nem só pelos 17 escravos que tinha sob sua posse, como também por estar inserida num comércio composto majoritariamente por homens.[22]
Embora a compra destes existisse, a maioria nesse período eram considerados crioulos[23], ou seja, escravizados nascidos no Brasil, fruto da convivência entre diversos grupos étnicos. Assim, compreende-se que a força de trabalho forçada em Jacobina era constituída, essencialmente, pela reprodução natural.
Os batismos dos escravos eram realizados na Igreja Matriz de Santo Antônio, refletindo a presença dessa população. De 1815 a 1821, segundo historiadores, 11% da população batizada era composta por escravizados. Dos 258 escravizados nesse período, apenas 17 eram africanos, pertencentes a diversas nações que, nesse contexto, representam identidades étnicas criadas na época da diáspora. Sendo assim, 8 deles eram da África Ocidental (Calhabá, Nagô, Tapa, Bornon, Jeje, Haussá), 6 eram da África Centro-Ocidental (Benguela, Cabinda, Gabinda e Congo) e 3 eram da costa.[24] A Vila de Santo Antônio de Jacobina
editar
Graças ao desenvolvimento da região devido às minas de ouro, uma carta régia de 5 de agosto de 1720 criou a vila de Santo Antônio de Jacobina, sediada na Missão de Nossa Senhora das Neves do Sahy, aldeamento missionário fundado pelos franciscanos em 1697 no atual território municipal de Senhor do Bonfim, e instalada em 2 de junho de 1722, em uma cerimônia presidida por Pedro Barbosa Leal, representando o governador da capitania e o vice-rei. Pelo fato da Missão do Sahy estar longe das jazidas de ouro, a sede da vila foi transferida, em 15 de fevereiro de 1724, para a Missão do Bom Jesus da Glória de Jacobina.[25]
A exploração aurífera prosseguia fora do controle oficial e em escala tão crescente que a Coroa Portuguesa, para melhor garantir a arrecadação do seu dízimo, por Provisão do Conselho Ultramarino de 13 de maio de 1726, determinou que o Governador da Capitania da Bahia criasse duas casas de fundição, uma em Minas do Rio de Contas e outra em Jacobina, esta última instalada em 5 de janeiro de 1727. O resultado foi surpreendente e auspicioso, arrecadando-se, na mina de Jacobina, em apenas dois anos, cerca de 3.841 libras de ouro, não obstante a difícil fiscalização sobre atividade de tal natureza.[25]
Em 4 de fevereiro de 1743, foi instalado o termo da comarca de Jacobina pelo desembargador Manuel da Fonseca Brandão. Desde então, Jacobina passou a contar com um órgão da Justiça Colonial portuguesa para resolver os conflitos locais.[26]
A freguesia de Santo Antônio de Jacobina Nova foi criada em 1752, 32 anos após a criação da vila. Recebeu a qualificação de nova para diferir da Freguesia de Santo Antônio de Jacobina criada no século XVII.[25]
O território original da Vila de Santo Antônio de Jacobina era imenso - estendendo-se por aproximadamente 300 léguas e abrangendo áreas desde Rio das Contas, Palmas de Monte Alto, Cachoeira, e indo até os limites com o atual estado de Sergipe, nas proximidades da Cachoeira de Paulo Afonso - e sofreu grandes perdas ao longo do tempo, com a criação das vilas de Minas do Rio de Contas (atual Rio de Contas, 1725), Santo Antônio do Urubu (atual Paratinga, 1745), Vila Nova da Rainha (atual Senhor do Bonfim, 1797), Sento Sé (1832) e Riachão do Jacuípe (1878).[25][27]
Jacobina durante o Brasil Independente
editar
Em 21 de outubro de 1822, a Câmara Municipal da vila de Santo Antônio de Jacobina jurou lealdade ao imperador D. Pedro I pela proclamação da independência, antes mesmo da independência da Bahia, ocorrida em 2 de julho de 1823.[25]
Na década de 1840, a descoberta de diamantes em regiões mais ao sul da Chapada Diamantina, como Lençóis e Mucugê, levou muitos jacobinenses a migrarem para essas jazidas diamantíferas, enquanto as jazidas auríferas de Jacobina estavam em declínio há décadas.[25]
O declínio das atividades locais foi o motivo principal motivo da demora da vila de Santo Antônio de Jacobina ser elevada à categoria de cidade, o que ocorreu somente em 28 de julho de 1880, pela Lei Provincial 2.049, valendo-lhe o título de "Agrícola Cidade de Santo Antônio de Jacobina" (mais tarde, apenas Jacobina). Sua instalação ocorreu em 11 de janeiro de 1893, após a Proclamação da República, quando o governador do estado era Joaquim Manoel Rodrigues Lima.[25]
Jacobina no período republicano
editar
Em sua história republicana, Jacobina perdeu território para a criação dos municípios de Saúde (1914 e 1933), Caém (1962), Serrolândia (1962), Várzea Nova (1985), Capim Grosso (1985), Ourolândia (1989) e São José do Jacuípe (1989).[14][28]
Nenhum comentário:
Postar um comentário